Curiosidades e informações sobre psicoterapia
Apesar da terapia ter se tornado bastante comum atualmente, motivada pela valorização do tema de saúde mental e desestigmatização de transtornos mentais e sofrimentos psíquicos, há muitos que nunca fizeram um acompanhamento psicoterapêutico. Adicionalmente a esses, existem aqueles que já fizeram ou fazem terapia, mas têm curiosidades a respeito do processo pela perspectiva do psicólogo: o que fazem? Como analisam? Quais informações são importantes? O que pode ou não ser falado em terapia? Pensando em apresentar de maneira generalista como funciona a psicoterapia (pela perspectiva das Terapias Cognitivo-Comportamentais) e também sanar algumas curiosidades sobre o trabalho do psicólogo, escrevo abaixo algumas etapas e informações relevantes sobre a terapia, a relação terapêutica e o nosso trabalho enquanto profissional de saúde mental.
Primeiro contato
Cada profissional viabiliza e estabelece o primeiro contato à sua maneira. Alguns utilizam as redes sociais, como Instagram, outros WhatsApp ou telefone. Alguns agendarão de imediato a primeira sessão, outros investigarão o motivo da sua procura inicialmente e, somente então, informarão a disponibilidade para iniciar o processo. Na minha prática clínica, visando o máximo de transparência e com a intenção de facilitar uma boa relação terapêutica, comunico por mensagem desde o primeiro contato que agendo um primeiro papo de 30min, on-line, antes de iniciar as sessões de psicoterapia. O objetivo desse primeiro encontro é conhecer quem me procura e poder também me apresentar e tirar possíveis dúvidas sobre o processo psicoterapêutico.
Contrato terapêutico
Os acordos terapêuticos envolvem: agenda (semanal ou quinzenal), horário da sessão, formato de atendimento (presencial, on-line, híbrido), política de atraso e falta, acordos de pagamento etc. Essas questões devem ser alinhadas e acordadas antes do início do processo. Esses acordos podem ser verbais ou definidos em um documento (assinado ou não) - trata-se de uma escolha de cada profissional.
Anamnese
Quando o processo se inicia, acontece nas primeiras sessões o que chamamos de entrevista de anamnese, que normalmente se estende para mais de uma sessão a depender da quantidade de informações que o profissional necessita coletar e do estilo de comunicação do paciente. Esse é o momento de conhecê-lo de modo geral: sua história, rotina, estilo de vida, hábitos, relacionamentos, histórico de doenças, tratamentos prévios, suas maiores dificuldades, queixas e objetivos.
Estabelecimento de objetivos
A partir das informações apresentadas durante a entrevista de anamnese, conseguimos, juntos, definir quais serão os focos da terapia, definindo prioridades e traçando um plano individualizado e alinhado com sua realidade, valores e preferências.
Planos de ação
Para atingir os objetivos terapêuticos (que podem ser absolutamente qualquer coisa que fizer sentido para sua vida, como, por exemplo, aprender a se regular emocionalmente ou a falar em público), precisaremos pensar em estratégias que irão viabilizá-los. Na TCC, chamamos isso de "plano de ação", que pode ser comportamentos ativos e de interação interpessoal, ou simplesmente exercícios mentais de confrontar pensamentos, por exemplo.
Evolução
Durante os encontros, é importante compreender o estado emocional atual do paciente, conversar sobre as estratégias acordadas previamente, quais principais dificuldades tem enfrentado e identificar mudanças - o que chamamos de "evolução do caso". Diferente do que se acredita no senso comum, a palavra "evolução" não implica algo positivo. Trata-se, somente, do processo e desenrolar da "história" do paciente na clínica. Pode incluir progresso, estagnação ou retrocesso.
Prevenção à recaída e alta
Quando a queixa inicial trazida pelo paciente, ou as novas questões que surgiram ao longo do processo deixam de ser uma demanda, ou seja, foram "resolvidas" de alguma maneira (incluindo deixar de serem relevantes e trazer sofrimento psíquico), podemos começar a trabalhar a prevenção à recaída e pensar na alta terapêutica. A prevenção à recaída diz respeito à retomada de questões relevantes e estratégias para prevenir que as queixas trazidas inicialmente pelo paciente voltem a trazer sofrimento significativo, e que este aprenda a identificar sinais importantes que indiquem retomada de sintomas, a fim de que busque ajuda precocemente, evitando agravamento do estado emocional. O que não significa encontrar uma fórmula mágica para nunca mais sentir emoções desagradáveis ou não ter problemas.
Sigilo e qubra de sigilo
O sigilo é um compromisso ético do psicólogo. O contato com familiares ou terceiros, seja para adquirir novas informações ou esclarecimentos, ou informar risco à vida do paciente, ocorrerá somente com a ciência deste e deverá ser discutido previamente em sessão. Somente em situação emergencial (como tentativa de suicídio iminente) o psicólogo poderá entrar em contato com algum familiar ou pessoa de confiança do paciente, sem aviso prévio.
Caso seja necessário entrar em contato com outros profissionais que acompanham o paciente, este deverá ser informado previamente.
O psicólogo poderá decidir pela quebra de sigilo, baseando sua decisão na busca do menor prejuízo, como risco à vida do paciente ou de terceiros, e outras situações extremamente específicas, restringindo-se a prestar informações estritamente necessárias - conforme artigo 10 do CEPP.
O paciente é parte crucial no processo! As estratégias são definidas e acordadas em conjunto. É uma relação horizontal, porque ninguém o conhece melhor do que ele mesmo. Por isso, feedbacks também são bem-vindos e extremamente importantes para a nossa relação e para o sucesso do tratamento. Somente dessa forma é possível entender suas expectativas, dificuldades e se as intervenções estão sendo eficientes. Sempre que for necessário, podemos recalcular a rota.